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Engenharia da Tragédia

24.11.2015 19h49 - por Assenar

“Você não se importa com as pessoas?”  Uma pergunta que bem pode ser a pedra filosofal da Engenharia da Tragédia.

Quatro ou cinco anos antes, quando do lançamento de mais um empreendimento de habitação social, alertou-se sobre os riscos e impactos de fazê-lo em área de grande declividade, na porção terminal da bacia de um córrego. – Você não se importa com as pessoas? Foi resposta em justificativa àquele projeto, que beneficiaria inúmeras famílias… Falácia: o primeiro princípio da Engenharia da Tragédia.

Um ano antes, quando um grave processo erosivo rapidamente se aproximava de uma das ruas daquele empreendimento, alertou-se que providência imediata deveria ser tomada a fim de evitar uma calamidade pública. – Você não se importa com as pessoas? Tirar o foco de outras obras e ações para voltar as atenções a um problema ambiental não seria prioritário para o povo, mas alarmismo… Omissão: o segundo princípio da Engenharia da Tragédia.

Quando a natureza castiga o ego e o solo se vai erodindo, levando ruas inteiras, redes de infraestrutura e severamente ameaçando casas e vidas, alerta-se sobre a necessidade de repensar as ações paliativas no local, sob risco de morte do córrego, morte do loteamento e outros impactos. – Você não se importa com as pessoas? O foco agora é salvar os cidadãos, depois a gente pensa no córrego… Imediatismo: o terceiro princípio da Engenharia da Tragédia.

Diferente de um desastre natural, uma tragédia é construída, é o resultado terrível da ação nobre de personagens ilustres: tem engenharia.

A boa engenharia, entretanto, é aquela que se importa com… as pessoas. É aquela que equaciona o uso racional de recursos para atender as necessidades das pessoas e defendê-las, inclusive, das forças conhecidas da natureza, sabidamente implacáveis, por vezes.

Para amanhã, alerta-se sobre a necessidade de realocar vultosos recursos que poderiam ser utilizados com saúde, educação, segurança, para uma custosa solução do problema que foi construído. Recursos que farão falta ao atendimento de outras necessidades das pessoas. Mas quem se importa com as pessoas?

 

Eng. João Ricardo Somensi

Presidente da ASSENAR